NO CORAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL
Santa Maria da Boca do Monte ou simplesmente Santa Maria “O coração do Rio Grande”, foi meu destino no feriadão da Páscoa.
Não importa como a conheçam, é uma bela cidade e porta de entrada para inúmeras atrações turísticas da região.
Cidade localizada na região central do estado, geograficamente conhecida como depressão central, esta localizada a 350 quilômetros de Porto Alegre.
Quando me perguntavam onde eu iria passar o feriadão, eu respondia em Sta Maria. As pessoas perguntavam se eu tinha parentes lá, procurando uma razão para minha escolha. Maquiavelicamente acrescentava: sim vou a Sta. Maria e depois passo por São João do Polêsine, Ivorá e Silveira Martins. No final passo em Mata. Quero conhecer melhor a Quarta Colônia.
As pessoas me olhavam um pouco desconfiadas, mas as que me conhecem melhor não contestam, pois sabem que eu sempre acho um lugar legal, e mesmo que seja um limão eu o transformo numa deliciosa limonada.
Não gosto de dar muitos detalhes; prefiro deixar nas pessoas aquela interrogação e a curiosidade. Na minha volta, elas certamente procurarão saber o que vi e fotografei. Poderia enumerar antecipando, que buscava várias coisas, entre outras que:
* O único sitio paleontológico por afloramento no mundo, a céu aberto:Mata.
*Primeiro conjunto habitacional do estado-Vila Belga, construída em 1898, para os trabalhadores da estrada de ferro.
*Sobrado Vila Etelvina, construída há mais de cem anos, marco da colonização judaica no estado.
Primeira Universidade Federal construída no interior do estado. –UFSM
* 4º Colônia, último núcleo imigratório italiano no estado.
Poderia mencionar ainda as localidades de: Mata, Silveira Martins, São João do Polêsine, Agudo, Ivorá e Faxinal do Soturno. Este roteiro é tão desconhecido da maioria das pessoas como os Anéis de Saturno. Mesmo assim belos como os anéis, esta região tão perto de nós, pode nos brindar com muitas belezas.
Iniciei meu roteiro por Santa Maria, sede da primeira estrada de ferro, construída em 1900, com o objetivo de alavancar a economia da região central do estado. Mais tarde o Exército Brasileiro escolheu a região para instalar diversas guarnições e finalmente o Governo Federal instalou a Universidade Federal de Santa Maria.
A cidade localiza-se geograficamente na Depressão Central, entre as bacias hidrográficas do Jacui, Toropí e Ibicuí. Ao norte se vê o nascer ou morrer, conforme o ponto de vista, os contrafortes da Serra Geral. No sentido sul perdemos os horizontes nos campos do sul, onde nosso rebanho segue pastando tranqüilamente pelas coxilhas pampeiras. Na faixa leste/ oeste a imensa planície que caracteriza a depressão central.
Além do Campus Universitário, da Vila Belga, Praças, casarios e sobrados e a Igreja Matriz com pinturas do Aldo Locatelli, merece ser visitado os museus de Vicente Palloti e Vitor Bersani, com acervos de mais de sessenta mil peças, com grande destaque ao setor de mineralogia, paleontologia e antropologia. Podemos ver fósseis do Therioherpton cargnin ou do Scaphonyx fichri, um antecessor dos dinossauros, além de centenas de blocos de arvores fossilizadas co mais de duzentos e cinqüenta milhões de anos.
Vamos conhecer um pouco do interior, pegamos a BR 158 e logo no inicio, cruzamos o arrojado viaduto no Vale da Garganta, que proporciona um belo panorama da cidade lá em baixo no vale. Seguimos até Itaara no topo da Serra Geral. São alturas inferiores a 400 metros, mas é o topo da região. Estamos num sitio de colonização alemã que posteriormente foi também ocupado pela imigração judaica, tendo como marco desta o Sobrado Vila Etelvina. A Colônia Philippson, homenagem ao Sr Frantz Philippson, banqueiro belga e vice-presidente das Companhias de Estradas de Ferro da Argentina e Rio Grande do Sul.
Na região pode-se visitar o Parque Oásis, balneários cascatas e trilhas ecológicas. Este parque idealizado e administrado pelo padre Lauro Trevisan, apresenta inúmeras atrações além da conhecida “cidade do passado” onde são resgatados os costumes e arquitetura dos antigos moradores. Poderemos entrar e sentir, o clima das antigas bodegas, armazéns, engenhos com moendas de água. Casas típicas dos colonos portugueses, italianos, alemães e judeus.
Outra alternativa é tomar a RS 516 e rumar em direção a São Martinho da Serra, conhecida como “Chave das Missões”. Foi nestas paragens, por tortuosos caminhos na mata nativa que os fundadores dos Sete Povos das Missões, chegaram. Voltemos aos anos entre 1576 e 1634, alguns intrépidos jesuítas vindo de Guairá penetraram na então terra dos Tapes, deixando as sementes de futuros núcleos colonizadores. São Carlos (Cruz Alta e Carazinho), São Miguel e Santa Maria da Boca do Monte são algumas das localidades onde estas sementes germinaram, embora muito sangue índio, espanhol e português tenha corrido.
Para manter a soberania de “seu” território, que era reclamada pelos espanhóis. O governo imperial, dividiu a província, em varias sesmarias que foram doadas aos valorosos capitães do exército imperial ou outros que de uma forma ou outra contribuíram com lealdade à coroa portuguesa.
O gado trazido pelos jesuítas, agora abandonado e selvagem pelos campos da Província de São Pedro era capturado aos poucos e dando origem as grandes estâncias, de onde seguiriam as tropas para as charqueadas.
Neste período até os idos de 1820, as melhores terras estavam nas mãos dos portugueses. O esforço colonizador perpetrado pela Imperatriz Dona Leopoldina a partir de 1824 chamou então a colonização alemã. Outras terras foram ocupadas, ficavam os grotões ainda desocupados. A região tinha de ser ocupada para fomentar o desenvolvimento e evitar novas invasões dos espanhóis. Tínhamos na região, centenas de sesmarias devolutas. Eram grotões encardidos nas serras; clima hostil, e muitos índios ferozes.
Guilherme Greehalz, em 1875 trouxe um decreto imperial, que lhe permitia mapear as terras devolutas e ocupa-las. Com a ajuda de amigos influentes em Sta. Maria, consegue fazer um assentamento em Silveira Martins.
1877 um grupo de colonos italianos, vem pelo Jacui até Rio Pardo, seguindo então em carroções até as encostas da Serra Geral. Chefiados pelas famílias Lorenzo, Biassus, Doto entre outras tantas estas cerca de 800 almas ficam acampadas na região. A natureza e o abandono governamental cobram seu quinhão, muitos sucumbem. A saúde, é o bem mais valioso e desejado, sem ela não haveria trabalho e progresso. Isolados, os sobreviventes com muita saga desenvolveram a região da então chamada Quarta Colônia.
Aos poucos o Vale Veneto, Vale Veroneze, Nova Palma e Dona Francisca começam a florescer. Hoje temos as localidades de Agudo, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Ivorá, Nova Palma, Pinhal Grande, Silveira Martins, Paraíso do Sul, São João do Polêsine como localidades representativas da 4° Colônia.
Apenas para maior compreensão, a 1°,2° e 3° colônias estavam situadas na encosta superior do nordeste,eram conhecida como: Conde Deu, Dona Isabel e Campos dos Bugres. Com terras melhores, mais próximas da capital e com maior colonização, foi se desenvolvendo mais rapidamente. Hoje as conhecemos como Bento Gonçalves, Caxias, Garibaldi entre outras tantas cidades da serra.
A Quarta Colônia lutou com muita dificuldade nos seus primórdios, a adversidade faz o homem a voltar ao seu interior e procurar força no espírito para alentar o corpo exausto.
Estas aperturas fizeram que o povo se espiritualiza mais, procurando um braço divino para minimizar o sofrimento do corpo. Foram surgindo muitos colégios no regime de internato, seminários. Estes centros canalizadores de cultura e espiritualidade chamaram os vizinhos. As filhas dos prósperos fazendeiros da campanha, negociantes dos centros maiores foram procurar ensino na região. Também muitos jovens, por vocação ou para fugirem das lidas da terra procuraram nos seminários uma razão para uma vida melhor.
Seja como for, a região foi crescendo, nos seus belos vales. Nas encostas das serras foram aparecendo localidades agradáveis, onde hoje se pode desfrutar cenários cinematográficos, com uma mesa farta de produtos coloniais. Inesquecíveis cafés colônias podem ser degustados e para o almoço o cremoso e saboroso risoto de frango.
A religiosidade marca profundamente a região. O Santuário de Nossa Senhora da Saúde, padroeira da Colônia, é uma constante nos inúmeros santuários pelos caminhos. Nada mais justo para os desbravadores que necessitavam de muita saúde para “laborar”.
Vamos sair agora dos grotões da serra e vamos para Mata, a “Cidade de pedra que já foi madeira”.
Para nos situarmos melhor no tempo e no espaço, vamos fazer uma pequena resenha da historia do nosso planeta:
Estima-se que a Terra tenha surgido há mais ou menos cinco bilhões de anos. Durante mais da metade deste tempo a Terra não apresentou nenhum tipo de vida, chamamos este período de Arqueozóico.
No período seguinte, conhecido como Proterozóico, há cerca de dois bilhões de anos, começaram a aparecer, as formas mais primitivas de vida nos mares.
Vamos pular, um grande salto na cronologia do planeta, chegando no inicio do Mesozóico, a duzentos e cinqüenta milhões de anos atrás. Nosso estado, possivelmente estava constituído por um terreno sedimentar em torno do escudo cambriano. A região já apresentava alguns sáurios vivendo nas grandes florestas de licopódios, cicadáceas e coníferas. Eram grandes árvores, podendo chegar aos quarenta e cinco metros de altura e terem diâmetros superiores aos cento e cinqüenta centímetros, semelhantes ao que hoje conhecemos por cavalinhas.
Num dos incontáveis acidentes geológicos sofridos pelo planeta, alguns deslocamentos de placas tectônicas, soterrou estas florestas.
Estas milhares de árvores sepultas, por um capricho da natureza, não apodreceram. Foram sofrendo a ação da água infiltrada no solo e substituindo seu conteúdo celular orgânico por material inorgânico. Num processo de substituição o espaço intracelular foi preenchido por sílica resultando no que conhecemos por fossilização.
Esta floresta permaneceu lá, fossilizada, petrificada, resistindo a toda a sorte de outros tantos eventos geológicos, como glaciações, terremotos etc...
Estimam os cientistas que os primeiro hominídeos tenham aparecido na face da Terra a 3,5 milhões de anos e que o Homo sapiens há 195 mil anos e vive até hoje; nós.
Nossa geografia, talvez esteja igual, nos últimos 20.000 anos, todas as alterações que nossa crosta sofreu com o passar dos milênios, resultou no afloramento deste material fossilizado há mais de 250 milhões de anos, que agora podemos observar na região de Mata.
Esta rica região em fósseis, era num passado muito recente, habitada por índios do grupo Humaitá, Umbu e Tupi guarani.
Pouco depois a região foi dada como sesmaria, em 1836 a um casal português vindo de Pernambuco. Por volta de 1885 chegam os primeiro colonos alemães. O povoado de então, lá pelos idos de 1920, é elevado à categoria de vila.
Provavelmente a partir desta época, o que a natureza preservou por 250.000.000 de anos, o homem dilapidou em pouco mais de 90 anos. Calcula-se que toneladas de madeiras fossilizadas tenham sido retiradas em vagões, caminhões, carros particulares, carroças, bolsos e sacolas.
Outra quantidade substancial foi usada para “decorar” a cidade e as casas. Apenas em 1976, graças ao padre Daniel Cargin, que este patrimônio natural tornou-se mais conhecido e a população mais consciente da sua grande riqueza paleontológica.
As praças municipais; N. S. Medianeira, Sto. Brugalli e a fachada do museu municipal estão enfeitadas com este material. Alias, praticamente todas as casa, igrejas e até alguns calçamentos são feitos com o referido material. Pior ainda, quando são cobertos com grossas camadas de cimento.
O Jardim Paleobotânico da cidade, na realidade é um campinho com pedrinhas. Algumas dezenas de fragmentos fossilizados, num potreiro gramado, e o pior é que a grande maioria, foi colocada ali; aleatoriamente pela mão humana.
Às vezes, em Londres, Hamburgo, Nova Iorque ou Paris, visitando museus, fico indignado com o acervo “trazido” de outros países. Pensando melhor, será que a resposta dos curadores destes museus, quando questionados sobre a legalidade da apropriação do patrimônio alheio.
-Nós valorizamos mais e cuidamos melhor destes patrimônios.
Lamentavelmente, questiono-me? Será que muitos destes fósseis não estariam mais valorizados num museu especializado ao invés de cobertos de cimento formarem uma escadaria de acesso a uma santinha de gesso?
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