Turquia e Bálcãs
Aconteceu tudo como eu havia previsto. Estou agora em casa, no inicio do mês outubro de 2005, escrevendo sobre minha última viagem.
Saí de Porto Alegre um pouco estressado, o que já é normal, quando tenho muitas horas de vôo pela frente. Para aumentar a ansiedade naquela manhã de domingo chovia muito. Meu vôo para São Paulo partia às 6:30, apesar do interminável dilúvio o RG 2127 decolou no horário previsto e pouco depois, às 8:15 estava pousando no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
O vôo para a Itália só partiria as 15:15, assim, como já estou habituado fiz uma longa espera pelo aeroporto. O AZ 675 decolou no horário com destino a Roma, o confortável Boing 777-200 cobriu em onze horas, num vôo tranqüilo, o percurso São Paulo/Roma, desembarcando nesta cidade às 7:30 horário local.
Esperei até às 12:05 quando o AZ 702, um MD 80, me levaria finalmente até Istambul. Finalmente após cerca de duas horas de vôo, desembarcava pontualmente às 15:25, horário local, no Aeroporto Internacional de Istambul.
Fui para o hotel, após um breve descanso, sai para rever a cidade. Meu hotel ficava cerca da Santa Sofia e Mesquita Azul, poucas quadras me separavam do centro turístico. Fiquei circulando pela região, visitando a Igreja Santa Sofia, o Hipódromo e a Mesquita Azul, já anoitecia quando entrei num pequeno restaurante no centro da cidade e jantei, um pouco antes de voltar ao hotel, sentei num café e fiquei tomando um espresso vendo a noite encobrir os minaretes da mesquita Azul.
No dia seguinte, o pessoal do turismo receptivo, com um bom atraso, veio buscar-me no hotel para o city tour.
Fomos inicialmente ao Bazar Egípcio, um souk pequeno, mais dedicados às especiarias e doces. O Grande Bazar é um pouco mais distante, e possui centenas de ruelas e milhares de pequenos estabelecimentos comerciais. Mais tarde formos ao porto, onde embarcamos para um passeio pelo Bósforo.
Bósforo é um estreito de mais ou menos 36 Km que separa o Mar Negro do mar de Mármara, que por sua vez é um mar exclusivamente turco, que só vai se abrir no Estreito de Dardanelos para o Mar Egeu e posteriormente no Mediterrâneo.
Navegamos por três horas, passando pelo Bósforo e Corno de Ouro. O Estreito do Bósforo divide a Europa da Ásia, divide também Istambul numa parte européia e outra asiática. Uma bela ponte, Sultão Moahmet, com 2 Km de extensão, une as duas partes.
Durante o passeio, ora apreciávamos a costa européia, ora a costa asiática. Inúmeras mansões, mesquitas, fortificações e hotéis de luxo bordavam a costa.
Quando retornamos do passeio, aproveitamos os resto da tarde para fazer outros passeios pela cidade. Aproveitei para jantar no terraço do meu hotel, Erboy, onde a cidade se descortinava a partir de minha mesa. Foi um lindo crepúsculo, a cidade foi se tingindo de vermelho e as águas do Bósforo cintilavam cadenciadamente naquele momento único.
Na manhã seguinte partimos em direção a Ankara, a capital da Turquia. Uma moderna autopista nos conduziu rapidamente a capital turca. Uma cidade moderna, com um maravilhoso sistema de transporte público, ruas arborizadas, prédios e lojas modernas.
Visitamos o fabuloso Museu da Civilização Anatólica e o Memorial de Ataturk, que é considerado o pai da Turquia moderna, devido ao seu trabalho de unificação e modernização.
No outro dia, rodamos cerca de 280 Km até a Capadocia, no meio do caminho paramos para visitar um lago salgado, agora apenas uma extensa salina, no meio de um vale situado mil metros acima do nível do mar.
Capadocia significa “região cheia de belos cavalos”, geologicamente falando, trata-se de um imenso vale vulcânico há mais de 1000 metros acima do nível do mar. Vê-se ainda no horizonte uma coroa de vulcões, atualmente extintos, sobressaindo-se os vulcões Argera e Erciyes.
Estes e outros, em tempos muito e pouco remotos, apresentavam grande atividade. Encontram-se ainda hoje em algumas grutas pinturas rupestre destes vulcões em atividade, expelindo fumaça e magma.
Naqueles tempos, estes vulcões expeliram grandes quantidades de cinza vulcânica, que unidas a matérias calcários deram origem a um tipo de rocha sedimentar que conhecemos pelo nome de pedra pomes, que é um tipo de lava espumante, extremamente vesicular e muito fácil de ser escavada. Posteriormente outros derrames de lava cobriram este primeiro com uma camada fina de basalto. Milênios de erosão aeólica e hídrica, esculpiram caprichosamente as formações que atualmente encantam na Capadocia.
Assim encontramos as habitações trogloditas, os chamados chapéus de fada e os castelos.
Visitamos inicialmente a Cidade Troglodita de Dernkuyu, onde cristãos escavaram na rocha porosa, vários andares no subsolo, para se protegerem das invasões dos bárbaros e árabes.
Seguimos para o Vale do Goreme, onde encontramos mais escavações na rocha, com igrejas ortodoxas e belos afrescos religiosos em suas paredes.
A região toda tem um aspecto inusitado. Salpicada de formações pontiagudas, e rendilhadas pela mão humana. A cor clara da rocha, com o azul suave do céu deu uma sensação inusitada aos nossos sentidos.
Aproveitamos a noite, para ir assistir um espetáculo, num caravanserai, dos Dervixes Dançantes. Foi um espetáculo mágico, uma hospedaria das antigas caravanas, uma noite de lua cheia, a música de flautas e tambores, um deserto silencioso e a dança rodopiante dos dervixes os levando ao transe hipnótico, deixou uma atmosfera indescritível.
No dia seguinte fomos à cidade de Konia, visitando a Mesquita Verde, onde estão os corpos dos sufistas dançantes.No final da tarde chegamos a Pumakkale. Visitamos a cidade do sol, Heliopolis, onde os antigos usando as fontes termais, predicando curas milagrosas, originaram o desenvolvimento de uma grande cidade. A poucos metros da cidade encontra-se os famosos terraços calcários, resultantes do continuo fluxo das águas termais ricas em enxofre, ferro e outros minerais que dão um colorido especial e originando belas piscinas tépidas. Semelhantes as que encontramos nos EUA, em Mammoth Hot Spring, no Yellowstone, sem preconceitos as do parque americano são infinitamente mais lindas.
Ao anoitecer fomos para o nosso hotel, em Kusadasi, um agradável balneário as margens do Mar Egeu, de onde partem diversos cruzeiros para a Grécia.
No outro dia visitamos a cidade de Bursa e seguimos a viagem de retorno para Istambul, aonde chegamos ao final da tarde.
Fui ao hotel, tomar um banho e sai em direção a Gare Central, para tomar o trem com destino a Sofia. O horário de partida do trem éra às 22 horas, mas antes das 20 horas eu já aguardava ansioso na plataforma o famoso Orient Express.
Fiquei numa cafeteria, junto à plataforma de embarque, aguardando a chegada do trem 478 que me levaria para a Bulgária. Enquanto isso meus pensamentos retornavam aos 2580 Km que tinha percorrido até então em território turco. Uma bela viagem que iniciava penetrando pelo interior do país e retornava margeando o Mar Egeu. Agora estava preste a iniciar uma nova etapa; a travessia dos Bálcãs até a Servia e Montenegro.
Viajava por enquanto, na terra da fantasia, imaginando aquele trem, aquela quase lenda, partindo de Londres, numa noite brumosa em Vitória Station, rangendo languidamente nos trilhos até Gare d Est em Paris seguindo por Dusseldorf, Colônia, Frankfurt, Zurique, Insbruck até chegar na estação de Santa Lucia em Veneza.
A última etapa seria Veneza/Istambul, que eu deveria fazer nas próximas horas. Finalmente o trem encostou, uma composição longa e de aspecto um tanto...digamos sofridas. Sabia o número do meu vagão e iniciei a procura-lo.
Um vagão velho, desconfortável e mal cheiroso. Um vagão de segunda classe de construção russa, minhas companheira de viagens duas estudantes eslovenas que combinavam em gênero, grau e numero com aquele vagão.
A viagem que pensara ser de no máximo de doze horas, transformaram-se em sofridas 16 horas.
Chegava no inicio da tarde em Sofia, troquei alguns dólares na estação e fui para o hotel. Após ter saciado a sede e a fome que me acompanhava desde a estação de Istambul, saí pela rua à procura de uma agencia de turismo, para reservar no dia seguinte o passeio ao Monastério de Rila, situado cerca de 120 km da cidade em cima das montanhas homônimas.
Foi um belo passeio, em todos os sentidos, com agradáveis surpresas, destarte a chuva fina que insistia em cair.
Aconselhado pela guia de Rila, desisti de seguir via ferroviária até Beograd, e comprei uma passagem de ônibus até a capital da Servia.
Outra viagem cansativa, mais de nove horas, com um transbordo em Nis e para finalizar com chave de ouro, o ônibus parou nalgum lugar, às 1:20 da madrugada com o motorista dizendo:
-Beograd...Beograd
Antes de ser expulso do ônibus, resolvi juntar minhas bagagens e descer. Estava sozinho, na madrugada, num largo mal iluminado e deserto, que o motorista insistia dizer: Beograd.
Que fazer? Só me restava procurar algum hotel pelas imediações. Não tinha nenhum dinheiro sérvio, apenas dólares; não tive oportunidade de fazer câmbio anteriormente. Nem dinheiro para ir ao banheiro em Niss, tinha, o qual me foi pago por duas simpáticas croatas que sentiram minha situação desesperadora. Agora na madrugada, sem dinheiro, sozinho não sabia onde, só me restava caminhar até um lugar mais iluminado e reavaliar minha situação.
Felizmente ao dobrar uma esquina, vi um letreiro salvador: HOTEL BRISTOL.
Corri até ele, esbaforido entrei. O porteiro da noite, não sei até hoje se surpreso, feliz ou mal humorado por tê-lo acordado, apenas rosnou:
-Passaport
O que fiz imediatamente, pedindo um quarto.O hotel não podia ser mais sinistro, antigo com um pé direito enorme e moveis do inicio do século, prestava-se como cenário de um filme de terror.
Naquela hora eu não queria ser personagem de um romance do Stephenking, John Lê Carré ou Agatha Cristie, eu só queria uma cama para dormir.
Entrei no quarto e fui direto para a torneira, para aliviar a sede que já me atormentava.Esta gemendo foi despejando no copo um líquido leitoso e espumante...olhei a velha banheira de deveria ser branca por volta de 1920, mas agora era de um negro fosco. Deixei o copo na pia e fui para o banho, felizmente após o banho aquele líquido no copo decantou e tomou o aspecto daquilo que costumam algumas pessoas chamar de água.
Bebi dois copos, esquecendo o cólera, gram negativos e salmonelas e fui dormir, sem antes encostar uma cadeira junto à maçaneta da porta.
Despertei na manhã seguinte com um burburinho na rua, abri a janela e vi uma cidade em toda a sua agitação. Estava mesmo em Beogrado, ali era a região dos terminais rodoviários, bem junto aos rios Savo e Danúbio.
Desci, paguei a conta, fiz cambio e tomei o desjejum. Pronto tudo voltava à normalidade, agora era só procurar o hotel que previamente havia agendado.
Fiz belos passeios pela cidade, visitando seus principais pontos turísticos e na tarde de domingo fui para o aeroporto tomar o avião que me levaria para Milão, onde faria a conexão para o vôo com destino a São Paulo.
A Alitalia acabou por cancelar meu vôo, assim tive que pernoitar em Milão e seguir no dia seguinte, pela manhã para o Brasil, aonde cheguei por volta das 16 horas e o vôo para Porto Alegre só partiria às 22 horas, com o atraso da Varig, acabei chegando em Porto Alegre, nas primeiras horas da terça feira.










